A sonoridade do ProzaK
entorpece e
destrava mentes e corações

O som de uma guitarra sanguinária
vaza pelos alto-falantes, enquanto uma batida entre o tribal e o
desenfreado ampara o peso do baixo e de outra guitarra. Menos de
um minuto e meio depois, o andamento muda para uma passagem puramente
psicodélica e, pouco depois, esses dois climas se fundem
para descambar numa torrente mesmerizante de peso. Apenas dois minutos
e meio dessa catártica montanha-russa sonora, e o desânimo
e tristeza do ouvinte foram embora. Isso é "Todas As
Forças Negativas", faixa de abertura do CDemo da ProzaK,
"Reciclando Almas".
Os irmãos Bruno (voz e guitarra) e Brisa Daitx (guitarra),
o baterista Adilson Tessari e o baixista André Gules têm
a ProzaK (assim mesmo, com K maiúsculo no final) desde 2001.
Combinando influências diversas, criaram um som personalíssimo,
mesmo sendo possível detectar ecos de Everclear, Afghan Whigs
e Superdrag. Dessas influências e da vontade de criar sua
própria expressão, a banda forjou uma sonoridade cheia
de saraivadas instrumentais, ora aceleradas, ora lentas, mas sempre
muito intensas. Chega até mesmo a assustar a sinceridade
e entrega da banda, que faz com que versos como "não
havia mentiras em minhas palavras/ era só um coração
partido / Sem dialogo eu te conquistei com minhas lagrimas/ e delas
fiz a chuva
Perfeita" soem perfeitamente críveis e naturais.
Em tempos em que CPM 22, "emocore" e canções
como "Quando o Sol Se Pôr", dos Detonautas, são
consideradas pela molecada como "emocionais" e "apaixonadas",
o ProzaK entra como um enfarte no coração da juventude
shopping center. Podem ser considerados radicais demais para tomar
o dial das rádios, mas nenhum dos pré-fabricados roqueirinhos
de bermudões têm estofo para compor transcrições
emotivas de apelo pop como "Um Lugar Qualquer" e a já
citada "Chuva Perfeita". Tampouco algum deles conseguiria
fazer jus ao suado rótulo de "visceral" como esses
gaúchos logram em "A Hora de Sobreviver" e "Você
Perdeu Sua Fé".
A ProzaK é uma banda que cativa por expor abertamente suas
qualidades e defeitos. "Reciclando Almas" foi lançado
logo após a morte do pai dos irmãos Daitx, o que precarizou
a divulgação do disco (o release chegou a mim escrito
a lápis num pedaço de papel), mas reafirmou a absoluta
crença que os quatro têm no poder revitalizador da
música. Para quem ainda não entendeu o que isso quer
dizer, Bruno Daitx tenta explicar na entrevista que segue. Para
quem ainda não acredita, ouça a banda (tem MP3 no
site www.prozakonline.cjb.net).
Há muito tempo uma banda estreante não comunicava
tanto prazer ao ouvinte.
Lado 1 - Por que o ProzaK existe? Como vocês resolveram
montar a banda?
Bruno Q. Daitx - A ProzaK existe pelo amor de todos integrantes
pela musica, todos investem sua vida na banda. Não para largar
trabalhos chatos e ser famoso ou ganhar dinheiro só tocando,
todos fazemos isso porque é a única coisa que sabemos
fazer, é a única coisa que gostamos de fazer. Independente
de sermos reconhecidos ou não, sempre vamos fazer nossas
musicas.
Muitas de suas
letras parecem ter um certo tom espiritual, perceptível em
títulos como "Você Perdeu Sua Fé",
"Todas As Forças Negativas" e o próprio
nome da demo, "Reciclando Almas". Vocês têm
a preocupação de refletir algo religioso?
Na verdade, eu, que faço as letras, nunca me preocupo [sobre
isso] ou tento passar ou ditar alguma idéia, tento fazer
as pessoas pensarem, refletirem através de suas interpretações
e sonharem. Mas sobre o tom espiritual, com certeza é uma
influencia, até mesmo porque fomos criados assim, meus pais
sempre falavam nisso para nós e acredito muito na espiritualidade
das pessoas, garanto que as pessoas que já se foram e gostam
de nós com certeza estarão sempre nos guiando espiritualmente
para o caminho certo.
Aliás,
o próprio nome da banda já reflete uma idéia
de querer afugentar a depressão...
Pois é, você foi o único que conseguiu interpretar
o nome da banda direito. Geralmente as pessoas acham que a gente
faz um som meio Radiohead e somos depressivos. Não, o nome
é esse porque a banda nos deixa feliz, então ela funciona
como um remédio para nós, por isso o “Prozac”.
Tanta sinceridade
e emoção nas composições deve despertar
reações extremas de amor e ódio em quem ouve
a banda. Isso acontece? Como é o público de vocês?
Pelo que eu vejo nos shows, é um tom apreensivo nas pessoas,
muitos que vêm falar comigo gostam dessa “alma desesperada”
que passamos para as musicas, mas já vi muita gente dizer
que não gostou porque achou muito forte ou que fazemos isso
para chamar a atenção.
No meio do
"portentoso" cenário do rock de Porto Alegre, imagino
que vocês sejam estranhos no ninho. Como é viver no
meio disso, e ainda sendo uma banda sem grana?
Porto Alegre sempre foi dividido em “panelas”: os punks/hardcore,
alternativos/emo, e agora os “antigões”, famosos filhotes
de cachorro (grande). Por incrível que pareça, a gente
conseguiu tocar em todos antros de POA e sempre a convite. Isso
eu acho que já é um reconhecimento do nosso trabalho
pelo nossos próprios colegas. Acho que nós gostamos
de ser “estranhos no ninho”.
Na questão
financeira, parece que vocês passaram por sérios apertos
recentemente, principalmente na "vida real" mesmo. Qual
é a motivação para continuar na banda com isso
tudo acontecendo?
Na verdade todos passamos por apertos financeiros o tempo inteiro,
já tivemos varias frustrações com a música,
mas amamos muito tocar e compor, nunca vamos deixar a musica. E
o mais importante: somos muito amigos e irmãos antes de sermos
colegas de banda, e temos uma história, o que poucas bandas
têm hoje em dia. É praticamente impossível desistir.
O som da demo
é bastante pesado, poderoso. Vocês conseguem manter
essa intensidade no palco? Por falar nisso, tem feito muitos shows?
Com certeza absoluta! Somos uma banda de rock'n'roll tosco. Geralmente
o repertório é escolhido a dedo para show ficar cada
vez mais “pancada”, como diz o nosso baterista Adilson, que por
sinal é o talento da banda, ele é o responsável
por todo peso da banda. Sobre os shows, estamos numa boa fase novamente.
Recentemente abrimos para o Jupiter Apple Maçã (risos),
mesmo com a diferença bizarra de estilos. Nossa agenda está
com 2 a 3 shows por mês e vamos tentar aumentar isso agora,
tocar mais para o interior.
Vocês
assumem suas influências, e elas são bastante perceptíveis
mesmo. Musicalmente, qual é o dado mais pessoal do som do
ProzaK?
Na verdade cada um escuta um tipo de musica, acho que eu e meu irmão
temos gostos mais parecidos até mesmo porque fomos criados
escutando o mesmo tipo de musica, aí já cito Raul
Seixas e Pink Floyd. Depois conhecemos Nirvana e nossa vida mudou.
Provavelmente é a única influencia geral da banda.
Depois com o tempo cada um seguiu seu rumo, eu sou fã de
Everclear, Eels e Superdrag, o Brisa curte muito o rock inglês,
Oasis, Bush... Adilson gosta muito de Primus, Sepultura... o André
curte um lance mais underground , adora Babychaos. Enfim, é
difícil botar um rotulo, a gente deixa o publico nos rotular,
pena ou legal que ninguém conseguiu ainda. (risos)
Com tantos
selos por aí, não receberam uma proposta de nenhum
para lançar um disco?
Os selos daqui dão preferencia às bandas que têm
um público grande e nosso público ainda não
se consolidou. Mas até o ano que vem surpresas vão
acontecer, estamos na pré-produção do novo
álbum, que com certeza vai ter uma copia em cada capital
do Brasil.
No site, no
encarte e em outros lugares vocês se autodenominam "família".
A relação entre os integrantes é familiar mesmo?
Sim, isso às vezes pode até atrapalhar, relação
familiar tem seus defeitos, mas ajuda também no processo
de composição, temos mais intimidade. Somos todos
irmãos, todos pensam da mesma forma e todos que ajudam a
banda, ajudam por gostar dela, todos eles formam a “Família
ProzaK”.
Como você
vê a banda no futuro?
Cada vez mais unida, fazendo um show cada vez mais “pancada” e compondo
bastante.

Site: www.prozakonline.cjb.net
E-mail: oficialprozak@antisocial.com